13/07/2020 às 12h51min - Atualizada em 13/07/2020 às 12h51min

O turismo está de volta mas faltam os turistas explicam empresários

Os maiores complexos turísticos do País, fechados há mais de 100 dias, estão prontos para reabrir, sob rígidos protocolos de saúde. Mas a boa notícia não significa que tudo voltará ao normal. Não por enquanto

Hugo Cilo / Revista Isto É Dinheiro
ARAGUAIA NOTÍCIA / AGUA BOA NEWS
RETORNO CAUTELOSO O Beach Park, no Ceará, está autorizado a operar a partir de 20 de Julho, mas a retomada das atividades, segundo o CEO Murilo Pascoal, será lenta e gradual. Foto: Jarbas Oliveira
De várias praias do município de Aquiraz, na região metropolitana da capital cearense, é possível ouvir os gritos – mesmo que distantes – dos turistas que encaram o maior tobogã do mundo, chamado de Insano, principal atração do parque aquático Beach Park. Com 41m de altura, a queda leva apenas 5 segundos e atinge velocidade de 105 km/h. Aqueles que não gritam, segundo os funcionários que organizam as filas, é porque perdem o fôlego. Há mais de 100 dias, no entanto, tão insano quanto o brinquedo é o cenário vivido pela empresa. No resort que recebeu quase 1 milhão de visitantes no ano passado só se ouve o sopro dos ventos típicos do litoral do Nordeste.

Com faturamento zero e completamente fechado desde março em razão da pandemia, a companhia demitiu 400 dos 2,2 mil funcionários, suspendeu o contrato de trabalho de 50% dos que permaneceram, renegociou com fornecedores e chamou para uma conversa cordial os clientes que já tinham férias programadas e pacotes comprados. “Para equacionar o fluxo de caixa e manter as condições de voltar a operar depois da pandemia, nós pedimos, e recebemos, a compreensão de parceiros e clientes”, afirma Murilo Pascoal, CEO do Beach Park. “O índice de cancelamentos ficou muito baixo e, com isso, conseguimos nos dedicar à definição de uma estratégia de retomada das atividades.”


  

Reaquecimento das Atividades: no Rio Quente Resorts, em Goiás, a reabertura na quinta-feira (9) disponibilizou 50% da capacidade, mas a ocupação ficou em 20%. (Foto:Divulgação)
A hora de recomeçar está, enfim, chegando. As autoridades do governo do Ceará deram sinal verde para que o complexo volte a funcionar a partir do dia 20 deste mês, sob uma rígida cartilha de segurança sanitária para funcionários e visitantes. O Beach Park, no entanto, avalia como e quando a reabertura total será feita. O que está certo é que a volta não terá a mesma velocidade de seus tobogãs. A empresa elaborou um minucioso protocolo sanitário em parceria com a Associação Internacional de Parques e Atrações de Diversões (IAAPA), que define desde distanciamento entre as pessoas até que tipo de desinfetante será utilizado na limpeza das bóias da piscina. O objetivo é que todos os procedimentos sigam padrões internacionais, dentro de uma política de tolerância zero para erros.

Inicialmente, com apenas 40% de disponibilidade de ocupação dos quartos, dezenas de equipamentos de luz UV serão utilizados para esterilizar malas e dormitórios do complexo. Restaurantes e áreas de grande circulação de pessoas serão constantemente nebulizadas com tecnologia nanotech, que cria uma película protetora nas superfícies. Os cardápios impressos darão lugar a pedidos de forma digital, acessados via QR code. Até mesmo a reserva de mesa deverá ser feita através do aplicativo Get In, sem contato com concierge ou garçons. Com isso, a empresa obteve o selo Safe Travels, concedido pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC). A certificação endossa protocolos de higiene e limpeza para prevenção e controle e infecções, como a Covid-19. “Fizemos o que tinha de ser feito para garantir total segurança aos visitantes quando retomarmos as atividades”, diz Pascoal. “Mas sabemos que a volta dos turistas será lenta e gradual.”
 
Para tentar resgatar a confiança dos turistas, as cinco principais entidades do setor (Abav, Abracorp, AirTkt, Braztoa e Clia Brasil) se uniram ao Ministério do Turismo na elaboração de um conjunto de medidas de biossegurança para que não apenas os hotéis, mas também as agências, possam retomar as atividades nas lojas físicas, atendendo às recomendações sanitárias necessárias à interação de funcionários e clientes. Com o lançamento do selo de biossegurança, as entidades da indústria começam a divulgar suas próprias medidas para a reabertura das empresas e reinício das atividades. “A retomada só vai começar, de fato, quando as pessoas voltarem a se sentir seguras em viajar. Vemos esse movimento em destinos que estão adiante de nós nesse sentido”, diz a presidente da Abav Nacional, Magda Nassar. “Com esse protocolo de medidas demos um passo importante para que nossas agências estejam preparadas para a reabertura.”


“Foi fundamental trabalharmos nos últimos meses perto de proprietários, colaboradores e, agora mais do que nunca, do novo hóspede” Maria Carolina pinheiro vice-presidente da Wyndham na América latina.

A percepção de que a retomada da indústria do turismo no Brasil será uma jornada longa e tortuosa é quase consenso entre empresários e especialistas. Deve levar meses – ou talvez anos – para que as perdas sejam cobertas. Na quarta-feira (8), a CVC Corp, maior agência de viagens da América Latina, projetou perdas de R$ 1,1 bilhão em razão da pandemia e com ajustes contábeis. Os papéis da empresa, que já acumulam desvalorização de 53,55% desde o início do ano, tiveram queda de 6,93% no dia, a maior entre todas as empresas, e terminaram o pregão a R$ 20,28. Mas isso é só uma gota em um oceano de problemas. Pelos cálculos mais recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a cadeia do turismo no Brasil já acumula, desde o início de março, perdas de R$ 87,79 bilhões em relação ao faturamento médio do mesmo período de 2019 e uma queda de mais de 90%.

Com o fechamento de fronteiras, cancelamento de voos e cuidados de isolamento social necessários para impedir a transmissão da doença, o caos se hospedou no setor, sem data para check out. “As perdas do segmento chegaram a R$ 13,3 bilhões em março, subiram para R$ 36,9 bilhões em abril e superaram R$ 37,4 bilhões em maio, meses em que houve uma paralisia quase completa do turismo”, disse o presidente da CNC, José Roberto Tadros. O cenário é ainda pior no segmento de turismo de negócios. O mercado, que emprega 25 milhões de pessoas e movimentou o equivalente a R$ 960 bilhões em todo o mundo em 2019, teve queda de 96% desde o começo de março. Por isso, na avaliação da CNC, ainda não é possível projetar as perdas do turismo. “Só sabemos que o estrago será grande.”
 
férias com saúde   Para o CEO do Grupo Aviva, Francisco Costa Neto, os procotolos sanitários passaram   a ser prioridade.

férias com saúde Para o CEO do Grupo Aviva, Francisco Costa Neto, os procotolos sanitários passaram a ser prioridade.

Para o CEO do Grupo Aviva, Francisco Costa Neto, os procotolos sanitários passaram a ser prioridade. Foto: Divulgação
 
DE PORTAS ABERTAS   O Wish Serrano, em Gramado, voltou a operar, mas com apenas metade da capacidade.

DE PORTAS ABERTAS O Wish Serrano, em Gramado, voltou a operar, mas com apenas metade da capacidade.

O Wish Serrano, em Gramado, voltou a operar, mas com apenas metade da capacidade.
Foto: Divulgação

Quem já reabriu as portas sabe muito bem qual é o novo cenário. O Rio Quente Resorts, em Goiás, voltou a receber turistas na última quinta-feira (9). Principal operação do grupo Aviva, que também controla o complexo Costa do Sauípe, na Bahia, disponibilizou menos de 50% de seus 1,5 mil apartamentos – dentro de uma realidade em que empresa teve de cortar 44% dos 1,8 mil funcionários durante a crise. Entre os protocolos para reabrir, a empresa passou a medir a temperatura de todos os colaboradores e fornecedores antes mesmo de eles chegarem ao resort. Pulseiras com tecnologia de aproximação, que já são utilizadas desde 2019 pela Aviva, substituem os cartões de acesso, o que garante mais segurança no momento do check in, entrada no quarto, até o consumo, gerando uma experiência segura. Além disso, colocou em prática um treinamento digno de guerra com os todos os empregados e recrutou um time de especialistas em imunologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor).

Como em um comitê militar, os executivos da Aviva se reúnem com médicos multidisciplinares para analisar todas as etapas da operação e, se necessário, ajustar os procedimentos. “Vamos fechar o ano com queda de mais de 50% na comparação com 2019 porque tivemos de redimensionar todo o grupo”, afirma Francisco Costa Neto, CEO da companhia. Embora o Rio Quente tenha retomado os negócios no dia 9, o parque aquático Hot Park será aberto ao público (para a modalidade day use) apenas em 7 de agosto. O Costa do Sauípe, até segunda ordem, reabre em 17 de julho. “Se antes tínhamos de zelar apenas das férias das pessoas, agora temos de zelar das férias e da saúde”, diz Costa Neto. Ele prevê que mesmo com todas as medidas adotadas a volta da normalidade será distante, apenas daqui a 18 meses.
 
Grande parte dos protocolos em adoção pelos grupos hoteleiros no País tem seguido padrões aplicados na Europa e nos Estados Unidos. O grupo espanhol Grand Palladium, dono de um resort cinco estrelas em Mata de São João, no litoral da Bahia, contratou a consultoria suíça SGS para replicar as medidas que deram certo nos mercados europeus em suas unidades na América Latina, incluindo México, República Dominicana, Jamaica e Brasil. A reabertura do complexo nordestino, chamado de Imbassaí, fechado desde 28 de março, será a partir de 6 de agosto, com apenas 40% a 50% de limite da ocupação dos 654 quartos. “Nossa retomada será muito gradual e cautelosa, com atenção total aos turistas mais velhos, com base na experiência que tivemos na Espanha”, diz Carollina Abud, que comanda da companhia na região. “Acredito que a volta à normalidade em número de turistas será apenas no ano que vem, com o restabelecimento da malha aérea”, afirma a executiva. Antes da pandemia, 50% dos hóspedes da empresa na Bahia eram argentinos. Em todo o mundo, o grupo opera 48 hotéis.


Aprendizado Internacional: Carollina Abud, do grupo espanhol Palladium, afirma que as experiências da companhia no exterior serão replicadas no Brasil. (Crédito:Divulgação)

Embora a empolgação com a reabertura dos hotéis seja uma boa notícia para toda a economia, o sentimento que predomina sobre os empresários do setor é de realismo. Na visão do empresário Guilherme Paulus, fundador da CVC e presidente do conselho de administração do grupo GJP Hotels & Resorts, o fim do ano será um aperitivo da recuperação, mas o prato principal virá apenas em 2021, se houver distribuição em massa de vacinas para a Covid-19. “Nos últimos anos, enfrentamos tempestades, furacões, manchas de óleo nas praias, mas nada comparado com a crise atual, a cenário mais desafiador que já vivenciei desde a década de 70”, afirma Paulus. “Mas sou otimista com a reabertura porque sei da capacidade que o turismo tem de reagir a situações de dificuldade.”

 
O NORMAL NO MUNDO Com a flexibilização do isolamento social em vários países, a indústria do turismo retomou as atividades. O sucesso da reabertura no Brasil dependerá dos protocolos adotados pelas empresas do setor.

O NORMAL NO MUNDO Com a flexibilização do isolamento social em vários países, a indústria do turismo retomou as atividades. O sucesso da reabertura no Brasil dependerá dos protocolos adotados pelas empresas do setor.

 O Normal no Mundo:  Com a flexibilização do isolamento social em vários países, a indústria do turismo retomou as atividades. O sucesso da reabertura no Brasil dependerá dos protocolos adotados pelas empresas do setor.- Foto: Scott Olson
 
Foto: Cecilia Fabiano
 
A reação do Grupo GJP é capitaneada pelo CEO Fabio Godinho com Gustavo Paulus, filho do presidente do conselho. A primeira unidade a voltar às operações foi o Wish Serrano, em Gramado (RS), na quinta-feira (8). A taxa de ocupação será limitada a 30%, com demanda apenas por visitantes em viagens de lazer. Os eventos corporativos ainda não têm data para voltar. A empresa estabeleceu uma estratégia de retomada em parceria com o hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, que ajudou a definir todos os procedimentos segurança. “Somos especialistas em hospitalidade, mas não somos hospital. Por isso, foi importante trazer para perto de nós os melhores especialistas do mercado”, afirma Godinho

Alguns dos maiores grupos hoteiros do mundo já estão na ativa. Das 37 unidades da Wyndham no País, apenas seis seguem fechadas. Segundo a vice-presidente de novos negócios para a América Latina, Maria Carolina Pinheiro, a taxa de ocupação de 25% em junho deve subir para 35% neste mês. “Implementamos novos protocolos. Foi fundamental trabalharmos nos últimos meses perto de proprietários, colaboradores e, agora mais do que nunca, do novo hóspede.”


Foto: Ana Paula Paiva - “Sou otimista com a reabertura porque sei da capacidade que o turismo tem de reagir a situações de dificuldade” Guilherme Paulus Chairman do Grupo


Impacto - O drama da indústria do turismo e a cautela com o planejamento de retomada não se limitam ao Brasil. Dados da United Nations World Tourism Organization (UNWTO) mostram que os fluxos internacionais de turistas deverão ter queda de 22% em 2020. As receitas, considerando que o segundo semestre vai acelerar em regiões que já flexibilizaram o isolamento social, devem cair de 20% a 30%. E o impacto é ainda mais preocupante nas economias que dependem mais da atividade turística. Enquanto no Brasil o setor representa 3,7% do PIB, em Portugal responde por 13,7%. Espanha (12,3%), França (9,5%), Grã-Bretanha (9%) e Itália (5%) seguem logo atrás. Um planeta em férias frustradas.
 

Entidades e empresários lançam movimento

O empresário Aldo Leone Filho, presidente da Agaxtur, uma das maiores agências de viagens do País, afirma que nos últimos dois meses trabalhou como raramente se viu. Foram 62 lives em 45 dias e uma intensa maratona de viagens Brasil afora. Mas não se tratava de uma agenda normal de trabalho. Com a companhia praticamente sem operar, ele incorporou a rotina de um espião. Visitava, a paisana, hotéis parceiros para verificar se os novos protocolos de atendimento e segurança estavam sendo rigorosamente cumpridos. “Por serem classificados como serviços essenciais, os hotéis nunca foram fechados e os aviões nunca foram proibidos de voar. O que aconteceu é que, sem passageiros e hóspedes, tudo teve de fechar”, afirma Leone Filho. “Depois de visitar diversos estabelecimentos, sei em detalhes como estão os protocolos dos hotéis desde Foz do Iguaçu até o buffet do resort Costão do Santinho, em Santa Catarina. O que posso afirmar é que, pós-pandemia, o patamar da hotelaria brasileira está muitos degraus acima de antes em termos de qualidade.”


Divulgação

Em paralelo à estratégia de visitar hotéis durante a pandemia, o empresário participou da criação do Movimento Supera Turismo Brasil. Pela primeira vez na história, entidades como Abav, Abracorp e Braztoa, junto a uma dezena de empresários, se uniram para criar redes colaborativas para a divulgação de fatos e opiniões que incentivem as viagens no Brasil. Além de apoiar a retomada do turismo, o movimento busca orientar o maior número de viajantes sobre cuidados nas viagens pós-retomada e ajudar a restabelecer a empregabilidade e a renda dos milhares de colaboradores do setor.

De acordo com o presidente da TourHouse, Carlos Prado, a retomada deve acontecer de forma gradativa, começando pelo turismo regional, seguido pelo doméstico e internacional. Durante o lançamento do movimento, o presidente da Braztoa, Roberto Nedelciu, destacou o papel do agente de viagens no processo de retomada. “Todo o trabalho de repatriação que fizemos fundamentou muito o papel do agente e do operador”, afirmou. “Agora é a hora de restabelecer a confiança do viajante e promover os pequenos destinos. Neste cenário, os agentes precisam saber quais são os protocolos de saúde para oferecer maior segurança aos passageiros.”

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