06/03/2018 às 23h37min - Atualizada em 06/03/2018 às 23h37min

Médico lembra que já teve depressão e diz que este mal afeta qualquer pessoa que viva sob pressão

Eduardo Marques atua como médico oncologista e professor voluntário da Unemat de Cáceres e nasceu em Barra do Garças. Ele lídera o projeto Laços e Abraços que leva exames preventivos contra o câncer por Mato Grosso. Eduardo afirma que médico também vive sob pressão e pode ter depressão.

Eduardo Marques, médico oncologista de MT
Em 1.999 um aluno do III ano do curso de medicina da UFMT começa a se isolar, se sentir sozinho, buscar em si o porque de estar fazendo medicina, deixar atividade física de lado e sentir um aperto no peito.

Assim, foram meses, até que um dia ao amanhecer, sua mãe o vê sentado à mesa da sala na companhia de livros e chorando copiosamente.

Tinha passado algumas noites assim, chorando no escuro e escondendo o sofrimento de todos, porque nem mesmo ele sabia de onde vinha a dor e a angústia.

Esse ex-aluno sou EU, e depois dessa noite tive ajuda da minha família e de professores, o diagnóstico foi de DEPRESSÃO e fui tratado.

Essa semana, mais um aluno de medicina tira a própria vida, aluno da mesma faculdade que formei, morador de Barra do Garças, onde fui criado e isso me trouxe à essa reflexão: Se eu não tivesse tido ajuda, qual seria o meu caminho? Há alguns anos o Daniel, um ex aluno da UFMT, neurocirurgião em Minas Gerais, cometeu suicídio. Há 2 anos, o Ricardo, também ex aluno da UFMT e morando em Minas Gerais, cometeu suicídio.

Eu conheci e convivi com os dois. Pessoas que nunca demonstraram nenhum sinal que pudesse tirar as próprias vidas.

O sonho de ser médico sendo interrompido. Garotos que muito antes de entrar no curso já vivem uma vida de devoção e dedicação praticamente exclusiva aos livros, pois a PRESSÃO para enfrentar um vestibular com concorrência de 30, 50, 100 candidatos por 1 vaga tem que ser assim. Meninos e meninas de 17, 18, 19 anos entrando em um curso de 6 anos com uma média de 8.000 horas curriculares, mais estágios, plantões, cursos, congressos, jornadas que no fim elevam essa carga horária para mais de 10.000 horas e uma carga brutal de informações à serem assimiladas.

Tomam guaraná em pó, café, energético para ficar acordado para encarar escalas de plantão e estudar (as vezes tendo como fonte de luz apenas uma vela); depois o Rivotril, o Dormonid para dormir, e assim segue-se estudando, SOBREVIVENDO e aguentando a pressão.

Crianças que muitas vezes estão longe da família, morando em pensões, sendo formados emocionalmente e tendo que aprender com a vida a serem independentes, resolutivos, viverem a pressão social e profissional de NUNCA ERRAR, mesmo sabendo que ERRAR É HUMANO.

Vendemos nossa juventude para sermos Médicos. Namorar, sair com os amigos, curtir as férias, descansar, fazer o que qualquer jovem gostaria vão ficando em segundo plano. Poder ser você mesmo é um grande desafio, a juventude escorre pelos ponteiros do relógio e agora a vida também tem se esvaído, a morte prematura e muitas vezes silenciosa aborta sonhos, interrompe projetos, destrói famílias.

"É quando estamos sozinhos que conhecemos nossos fantasmas. É quando fechamos a porta do nosso quarto que sentimos todo o peso que é tentar viver com a Depressão".

Sou professor voluntário da Faculdade de Medicina da UNEMAT de Cáceres/MT e conheço inúmeros casos de alunos que, como eu, enfrentam ou enfrentaram a ansiedade, depressão e tentam diariamente se superar, viver, aprender a Salvar Vidas enquanto lutam pela própria vida. Mas que apoio as faculdades estão dando para esses meninos, esses jovens? Quem procurar quando sentimos que a solidão e o silêncio passam à ser nossas companheiras preferidas? Quando que as instituições vão se mover e tratar esse assunto com a seriedade que ele merece? Ou esperaremos para saber: De qual faculdade de Medicina será o próximo suicídio? Qual será a próxima mãe à chorar sobre o caixão do filho?
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