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14/12/2017 às 18h16min - Atualizada em 14/12/2017 às 18h16min

Em livro, escritora narrou morte parecida com a dela

Zélia Diniz escreveu vários livros e em 2016 lançou uma coletânea de 'Contos sem pontos' onde narra a morte de uma personagem da mesma forma que ela morreu. De acidente, com ferimento na cabeça. A escritora aragarcense morreu dia 13/12 numa colisão automobilística

Ronaldo Couto
Araguaia Notícia
Uma coincidência que nem mesmo Zélia Diniz, 79 anos, poderia imaginar. Fãs da escritora que já leram diversos livros dela acharam um conto, que ela escreveu em novembro de 2016 onde uma personagem da escritora tem uma morte parecida com a dela: de acidente com ferimento na cabeça. Veja trecho do livro mais abaixo: 

A escritora e historiadora morreu vítima de um acidente carro em Barra do Garçs na terça-feira (13/12) quando colidiu o veículo dela numa carreta. É claro que Zélia não imaginava nunca que iria morrer como morreu uma personagem dela com ferimento na cabeça e de acidente. Veja abaixo o texto de Zélia.

Zélia Diniz foi a fundadora da Academia de Letras de Barra do Garças e presiu no passado a Academia de Letras do Centro Oeste. Ela narrou, forma esplendorosa, a trajetória de garimpeiros e colonos que povoaram as cidades de Barra do Garças e Aragarças nas margens dos rios Garças e Araguaia.

A historiada foi sepultada na quinta-feira (14/12) em Aragarças-GO após várias homenagens na Câmara Municipal. O filho da escritora, Roldão Diniz, fez questão de defender a mãe sobre o acidente ocorrido. “Um motorista de ônibus que viu a colisão disse que o carreteiro foi fazer uma ultrapassagem e colidiu no carro da minha mãe que ainda tentou jogar para acostamento. Peços aos caminhoneiros que andem mais devagar que respeitem também os carros pequenos. Não são todos mas tem infelizmente alguns inconsequentes”, desabafou.

CONTOS SEM PONTOS 

" O ACIDENTE- Meu Deus, como pôde acontecer tamanho acidente! Ninguém me socorre! Não quero morrer. Me ajuda, Senhor!

Caminhando trôpeça pela margem direita da estrada, vive o desespero de sentir a testa esfacelada expondo o interior do crânio. Não dói nadinha. Não sangra. Mas está muito ferida. Passa a mão pelo rosto, devagarzinho para não magoar o ferimento e avaliar sua intensidade. O rosto está intacto. É só a testa mesmo. Experimenta os braços com movimentos lentos. Tudo bem. As pernas..., bem, as pernas não estão fraturadas. Está andando e não aparece ninguém para lhe socorrer.

- Meu Deus, me ajuda. Mande alguém. Faça um milagre.

Sei que não resisto muito tempo assim, com a cabeça esfacelada. Por que não sangra? Por que não dói?

- Ó graças a Deus. Vem chegando alguém. É meu marido. É ele mesmo.

Frio, sem espanto nem carinho, sequer uma atenção especial, toma-lhe a mão e a conduz pela estrada afora. Ela pede, pede sempre por um médico. Precisa ser medicada. Onde estariam os médicos? E um carro para transportá-la ao hospital? Nada. Está cansada. só caminham sem uma palavra alentadora.

- Pare. Olhe bem ali. São os médicos do quartel.

Não muito distante, ao redor de uma mesa de cirurgia, estão quatro ou cinco médicos. Seria uma mesa de cirurgia ou uma maca com um homem deitado? Não importa. Ali está o socorro necessitado.

- Vamos, por favor. Estão ali. Vou ser atendida.

Impassível, ele continua. Ela, de um arranco, solta-se da mão grande e forte que lhe segura e corre em direção aos homens que avistara. Curioso. Estavam todos fardados. Os de pé e o deitado. No meio do campo. Aproxima-se bem.
-Olhem, não sei como aconteceu, mas minha testa está toda quebrada. Preciso ajuda.

Ninguém se volta para ela. Nem sequer um olhar.

Desconsolada, retorna para a mão que se lhe estendia. Neste apoio silencioso, continua sua caminhada. Para onde?
Passa a mão pelo rosto apalpando da mandíbula até a região da meninge. Aí tudo bem. Nada dói. Veio-lhe uma luz.

- Acho que não me atenderam porque não estou sentindo dor. Não gritei, não gemi, não chorei. É isso mesmo. Não acreditaram em mim. Mas, e os ferimentos da testa descarnada e sem os ossos?
Tinha perdido os ossos. Parece que se craquelaram miudinho e caíram um a um sem que ela percebesse. Mas quando foi? Como foi?

Continuam caminhando e ela fala sem parar. Fala da falta de compreensão, da falta da dor, da falta do sangramento, da falta do socorro. Seu marido parece muito zangado. Tão zangado que nem fala. Não disse uma única palavra desde que a encontrou, ali, naquela beira e estrada. Ela fala baixinho:

- Ó, meu Deus, o que eu fiz de tão errado?

Estavam agora subindo uma escadaria. Um ambiente indefinido. Não via salas, corredores, móveis ou qualquer sinal de vida. Só a escada que subia. De onde? Para onde? Apoiada em quê?

Quando chegar ao hospital, eu vou chorar muito. Vou gritar. Vou mesmo fazer um escândalo. Só assim eles vão me atender. Vão pensar que está doendo muito.

Lembrou do seu primeiro parto. A mão áspera da mamãe fazendo massagens na barriga estufada. Quando ensaiava um grito, ela lhe dava um tremendo psiu e dizia:
- Não faça escândalo. Parto é assim mesmo e não adianta gritar. Você não é a primeira mulher a parir e não será a última.
Outros partos. Cinco. Só triscando os dentes e furando as palmas das mãos com as unhas. Ninguém acreditava no que via. Mulher parir sem um concerto de gritos. Inédito. Nessa prática, morrera-lhe o quinto filho e quase o quarto. O terceiro e segundo foram bem melhor. Parto rápido. Mas e o primeiro? Aquele horrível balão de oxigênio e a ansiedade da mamãe rezando e se esforçando para engolir as lágrimas.
Cadê a dor da testa? Degraus mais degraus. Até onde? Cadê o prédio dessa escadaria?
- Para onde você está me levando? Cadê o hospital? Não vou resistir muito tempo.
- Estou à sua espera há 19 anos. foi muito difícil deixá-la em casa. Ir sozinho naquele caixão negro, eu que nunca dormi no escuro. Tentei trazê-la comigo. Não consegui. Agora, nada mais nos separará, nada, nada, nada...
...De novo, só nós dois, mais ninguém. Para sempre..."
 
Zélia dos Santos Diniz - Contos sem pontos

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