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09/02/2024 às 10h20min - Atualizada em 09/02/2024 às 10h20min

"Adoção não é caridade, é só mais uma forma de ter filhos", diz mãe que adotou menino de 6 anos e deu à luz meses depois

Kandre Requião sempre sonhou em ser mãe pela via da adoção, até que adotou Bernardo, com 6 anos na época, após o menino ser devolvido por duas famílias. Meses depois, ela engravidou de Lívia, uma criança autista, hoje com 5 anos, e busca desmistificar percepções sobre a adoção em suas redes sociais

Crescer
Foi apenas com 12 anos de idade que a empresária Kandre Requião, 36, de Salvador (BA), decidiu que queria ter filhos por meio da adoção. E foi com 6 anos que o pequeno Bernardo, hoje com 12, realizou o sonho de Kandre de ser mãe — e o próprio, de ter uma família que o amasse. "Não sei explicar quando esse desejo cresceu no meu coração, é algo que estava sempre ali, desde criança", conta a mãe, que publica uma série de conteúdos sobre a rotina com os filhos — Bernardo e Lívia, 5 — e sobre a adoção em seu perfil no Instagram (@adoteimeusfilhos).
 
Quando Kandre conheceu o marido, Marcos Aidan, em 2011, uma das primeiras conversas que tiveram antes de começar o relacionamento foi sobre o desejo dela de adotar. "Tive a grata surpresa dele ficar extremamente emocionado e dizer assim: 'Nossa. Então até nisso a gente combinou, porque eu tenho muito desejo de adotar desde os meus 18 anos'", relata. "Nós combinamos que, quando casássemos, esperaríamos dois anos para começar a tentar ter filhos. Não importa por qual via esses filhos viriam, nós iríamos iniciar o processo tanto pela via adotiva, quanto pela via biológica, com dois anos de casamento", continua.

Apesar do prazo estipulado pelo casal, logo em 2015, no ano em que se casaram, Kandre já teve o primeiro contato com Bernardo. Ela participava do Comitê da Criança do banco em que ela trabalhava, e Kandre integrava diversas ações em abrigos na cidade de Salvador, onde morava, até que visitou o abrigo em que o pequeno vivia. "Assim como o Bernardo me tocou, outras crianças também me tocaram, claro, mas a história dele me tocou muito. Ele tinha ido para o abrigo com cinco irmãos e todos os irmãos tinham sido adotados, menos ele", conta.

Entretanto, mesmo com a vontade de ser mãe, Kandre ainda não estava em um momento viável para uma adoção, pois tinha acabado de se casar. "Eu falei: 'Até lá, ele vai ter sido adotado por alguma família, com certeza', e o coloquei em minhas orações, para que isso acontecesse o mais rápido possível", afirma.

A adoção de Bernardo
Em 2017, dois anos após o casamento, o casal passou a seguir os planos de ter uma criança: além de começar a fazer exames para acompanhar uma possível gravidez, que os dois tentaram ao longo de 6 meses, Kandre e Marcos começaram a juntar os papéis necessários para um processo de adoção. "A gente achava que o filho biológico iria vir primeiro, porque sempre ouvimos falar que demora muito, que as pessoas demoram anos na fila da adoção. Porém, como o nosso perfil era mais amplo — nós aceitávamos crianças até 8 anos, não escolhemos o gênero, a raça, etnia e não nos opomos a doenças intelectuais e físicas, de nível leve a moderado —, nosso processo foi muito rápido", explica a mãe. Assim, Kandre e Marcos se habilitaram para a adoção em um mês e, em dois meses, já iniciaram o processo de aproximação de Bernardo.
A adaptação do pequeno, no entanto, não foi fácil. Segundo Kandre, o filho ainda vivia uma série de inseguranças e traumas após ser devolvido ao abrigo por duas famílias, e isso fez com que seu comportamento piorasse no início. "Eu era mais uma que prometia a ele que nós seríamos uma família, mas que a qualquer momento poderia desistir, como as outras duas desistiram. Era muito difícil conquistar a confiança dele, então a gente tinha que, a todo tempo, reafirmar o nosso amor por ele, a nossa escolha de sermos uma família. Que a gente não ia voltar atrás e que família é para sempre", relata.

A chegada de Liv

Em meio a uma adaptação complicada, afastamento de familiares e amigos e apenas dois meses de aproximação com Bernardo, Kandre engravidou de Livía — mais conhecida como Liv —, que foi uma surpresa para a família. "Nós não queríamos engravidar naquele momento, paramos de tentar a partir do momento que o Bernardo chegou. No momento, eu e meu marido ficamos muito preocupados, porque a gente estava vivendo todo esse turbilhão... o Bernardo ainda não estava adaptado, essas questões da família estavam retardando a adaptação dele e havia um bebê [a caminho]. Um bebê que viria de forma biológica. Então, a gente se preocupava se isso também iria afetar o Bernardo em algum momento, de ele achar que era 'menos filho' do que o bebê que estava na barriga", confessa.
Quando ela e o marido anunciaram a gravidez de Liv para a família, ouviram que o filho não seria bom para o bebê que estava por vir, que o ciúme e agressividade do menino seriam um risco e aquilo era um sinal de que Bernardo não era para ser da família. "Mal sabiam eles que Deus já tinha me respondido com o Bernardo e ele estava me respondendo mais uma vez, porque o Bernardo também era um sonho nosso — e a adoção também", diz Kandre, que atualmente mora com a família em Boston (EUA). A mudança aconteceu em 2021 e foi motivada pelo diagnóstico de Liv, para que a pequena tivesse um melhor acompanhamento em relação ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas altas habilidades, e para que Bernardo crescesse afastado das situações de preconceito e exclusão que viveu de outros familiares.
 
"A relação deles [dos filhos] veio para quebrar todos os preconceitos que todas as pessoas falaram", Kandre diz. Isso porque Bernardo e Liv possuem algumas diferenças marcantes: Bernardo possui Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH); já Liv foi diagnosticada com autismo de nível 1 e também superdotação. "Quando a Lívia chegou, eu já desconfiei logo nos primeiros meses. Ela tinha muitos sinais, não olhava para mim, ela se balançava igual uma gangorra no berço. Eu tinha muito medo do autismo, do preconceito", revela. De acordo com mãe, a pequena falou sua primeira palavra com apenas dois meses e fala quatro idiomas desde os 4 anos de idade.
 
"O TDAH é o oposto do autismo: [a pessoa com] o TDAH é hiperativa, fala alto e fala muito, é exacerbada, impulsiva. Já o autista é metódico, tem sensibilidade, não gosta de muito barulho. Liv gosta das coisas do jeito dela, dentro da metodologia dela, no tempo dela. Ela tem que ter o tempo dela sozinha, gosta de brincar sozinha também; já ele [Bernardo], não. Ele gosta de brincar com outras pessoas, fazer muito barulho. Então é um desafio constante", pontua a mãe.
Apesar das diferenças entre os filhos, o casal consegue adaptar as necessidades de cada um dentro da rotina, e Kandre acredita que o diagnóstico dos filhos não atrapalha a convivência deles enquanto irmãos. "Eu tenho um irmão biológico e eu não sou tão unida ao meu irmão como o Be e a Liv são. Eles brincam, brigam também, como todo irmão, mas são muito amorosos um com o outro. O Bernardo é muito amoroso e cuidadoso com ela também, ele já sabe das limitações dela e sempre está preocupado", conta.

Adoção e expectativas

Se Kandre tivesse que optar por dar um conselho para uma família que pretende adotar uma criança, seria em relação a construir um preparo cuidadoso antes dela acontecer. "Quando eu falo preparar, é preparar a família também, os amigos, estudar sobre, compartilhar o que está sendo estudado, fazer anotações e entender que adoção não é caridade. Que aquele filho que vai chegar não vai ser grato e ele não tem que ser grato, porque você não está fazendo nenhuma caridade. É só uma forma de você ter filhos", pontua a mãe. "Ele vai precisar bastante de você. E talvez ele nunca corresponda às suas expectativas como um filho biológico, assim como minha filha nasceu autista e eu não esperava", completa. E Kandre lembra: se as expectativas forem quebradas, está tudo bem - isso faz parte da parentalidade, em sua visão.
"Ser mãe e ser pai não é você tentar fazer uma pessoa do jeito que você quer, é você pegar aquela pessoa, com as características que ela já tem, e tentar retirar o melhor que ela tem dali, tentar fazer com que ela se enxergue como ela de fato é e fazer com que ela consiga trabalhar com o que ela tem para se tornar a melhor versão dela mesma", reforça. "Ser mãe de Bernardo e depois de Liv, com autismo, foi uma escola que nenhum livro, nenhuma faculdade, nunca conseguiria me ensinar como eles me ensinam", conclui.

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