A auxiliar administrativa T.M.O., de 37 anos, viu a sua vida virar de cabeça para baixo nos últimos meses, após ter denunciado as agressões físicas, verbais e psicológicas do ex-marido, o advogado T.C.S., de 38, com quem se relacionou por nove anos.
Tenho muito medo de morrer. Temo pela segurança dos meus filhos, principalmente do menor que é filho dele também
Ela alterou completamente a sua rotina, já quase não sai de casa e vive com o medo constante, além de temer pela segurança dos filhos, uma adolescente de 15 anos e um menino de três, fruto dessa relação.
“Tenho muito medo de morrer. Temo pela segurança dos meus filhos, principalmente do menor que é filho dele também. Tenho medo dele sumir com meu filho, de que por vingança o mate”, afirmou.
“É a forma com que ele mais me afetaria. Não acho que ele sinta amor, o nosso filho é só uma arma contra mim e ele sabe disso”, completa.
T.M.O. cogita até mesmo mudar de Mato Grosso para tentar refazer a sua vida. Atualmente ela sofre ansiedade, teve perda de apetite e apresenta quadros de insônia.
“Desde maio, quando eu o denunciei novamente, a minha vida nunca mais voltou ao normal. É exaustiva, uma tortura”, disse a auxiliar.
“Tenho muita vontade de sair de Cuiabá, só não saí ainda por não ter meios para morar em outro Estado. Aqui eu corro risco de morte”.
OAB suspensa Com toda a repercussão do caso, o Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso suspendeu o advogado por 90 dias.
Relatora do processo, a advogada Renata Faria de Oliveira Vivela afirmou que a conduta dele foi “prejudicial à dignidade da advocacia”.
Acompanhando toda essa repercussão e diante do comportamento violento do ex, T.M.O. disse se questionar sobre a escolha que fez ao denunciar o caso.
“Vejo comentários do tipo: ‘essa aí vai morrer, vai ver que a lei não serve de nada’, ‘ih ele vai matar ela’. Fico triste, baqueada, penso se estou fazendo certo. Será que o certo era fugir, não fazer nada ou estar aqui lutando?”.
Prisão e soltura T.C.S., foi preso na noite do último domingo (14), no restaurante Aragon, em Cuiabá, após descumprir medida protetiva contra a ex e xingá-la na frente das autoridades policiais. Em menos de uma semana ele foi solto.
A auxiliar, que estava aliviada com a prisão, temia o momento da soltura.
“Tenho que me cuidar mais ainda, já que as autoridades não têm esse cuidado e soltam um agressor violento. Impunidade escancarada!”, diz.
De acordo com T.M.O., quando chegou ao restaurante para comemorar a colação de grau de uma amiga, o ex já estava no local. Ele a viu e se recusou a se retirar, mesmo com a existência de uma medida protetiva que estipula 500 metros de distância entre os dois.
“Estou saindo pouco por conta dos problemas com ele, e de todos os lugares em que eu já estive e ele estava ou chegava, era sempre eu a me retirar, às vezes antes mesmo dele me ver. Essa foi a primeira vez que não me retirei”, disse.
Tenho que me cuidar mais ainda, já que as autoridades não têm esse cuidado e soltam um agressor violento
A vítima chegou a acionar o “botão do pânico”, mas foi atendida por uma viatura que patrulhava a região. Segundo T.M.O., mesmo com a presença da Polícia, o advogado se recusava a sair do restaurante e, inclusive, usava a profissão como justificativa.
“Ele se recusou a sair falando que tinha chegado primeiro, que ele é advogado”.
Na delegacia T.C.S. negava ter visto a vítima e continuava a insultá-la com xingamentos.
“Eu já estava com muito medo e quando chegou na delegacia nem na frente dos policiais ele me respeitou”, disse.
Da Justiça, a auxiliar espera que o ex pague pelos danos que causou a ela e aos filhos.
“Preciso de uma punição, não é possível que a Justiça seja tão branda, são tantas evidências de que eu estou sendo ameaçada, de que a gente está correndo risco. Mas não vou desistir da justiça! Vou lutar até o fim”, disse.
Marcada para sempre T.M.O., disse que a vida hoje é muito pior do que quando estava com o ex, mas que ainda assim não se arrepende de ter posto fim a relação.
“Esses três anos separada eu vivo muito pior do que quando eu era casada. Casada era um terror, mas separada é pior. Ele se tornou uma pessoa muito pior. É uma raiva, um ódio sem igual”, disse.
Nem a auxiliar nem os filhos dela fazem qualquer acompanhamento psicológico. “Acho que a agressão física marca a gente, mas a psicológica muito mais. Acho que vamos carregar isso para sempre”.
“Não reconheço o homem com quem eu me relacionei todos esses anos. Não me arrependo de ter terminado, deveria ter feito isso bem no início, nos primeiros indícios. Antes eu não consegui ver, hoje eu consigo”.