12/07/2020 às 11h28min - Atualizada em 12/07/2020 às 11h28min

Discriminação aos ciganos atravessa séculos e se agrava na pandemia

Jessica Bachega / Gazeta Digital
ARAGUAIA NOTÍCIA

Apesar de estarem no Brasil há mais de 500 anos e compreenderem cerca de 500 mil espalhados no país, os ciganos ainda sofrem com o preconceito e invisibilidade. Situação agravada pela pandemia de covid-19 e coloca muitas famílias em dificuldade até para a alimentação. Há casos em que grupos itinerantes foram expulsos de cidades do Sul do país e a proibição do comércio compromete a renda familiar.

 

Muitos deles não têm acesso à escola e há casos de pessoas que sequer tem a certidão e nascimento, o que dificulta ainda mais o acesso aos programas sociais do governo. Sem assistência nenhuma para enfrentar a pandemia, as associações ciganas cobram os órgãos competentes a elaboração de um plano de ação que contemple os povos ciganos, mas ainda não existe nenhuma nas esferas municipais, estaduais e federal.


No dia 24 de maio foi comemorado o Dia do Cigano, instituído em 2006. Contudo, as celebrações ainda são tímidas, pois os estereótipos que tacham os povos de forma negativa ainda predominam na sociedade e contribuem para a discriminação dos grupos.


Em Mato Grosso, a estimativa é de que existam mil ciganos com predomínio da etnia Calon, concentrados em Tangará da Serra, Rondonópolis e Cuiabá, conforme explica o jornalista e estudioso sobre o assunto, Aluízio Azevedo, cigano da etnia Calon. No Brasil, também há os grupos Rom e os Sinti e outros subgrupos.

 

Com o passar dos séculos, alguns costumes deram espaço os avanços do mundo moderno. As roupas exuberantes e a joias que constituíam a vestimenta diária, assim como os trajes característicos masculinos, não aparecem no dia a dia. Elas são guardadas para dias festivos e há poucas cidades em que se encontram acampamentos.


“Apesar de não morarem mais em barracas, o que ocorre é que muitos alugam casas em uma cidade, ficam por alguns meses e depois se mudam. Como eles trabalham com o comércio informal, em sua maioria, acabam residindo pouco tempo em um lugar”, explica o jornalista.


Muitos dos ciganos se converteram ao catolicismo e evangelismo, se casaram com pessoas que não são ciganas e guardam costumes para as reuniões em família, geralmente numerosas.

 

Divulgação

familia terezinha ciganos

familia terezinha ciganos

 Parte da família de Terezinha

Terezinha Alves é filha de ciganos Calon e nasceu em uma tenda há mais de 50 anos. Ela tem 5 irmãos e conta que na vida adulta não sentiu preconceito. Foi a primeira no Brasil a se formar em uma faculdade e não esconde sua origem. Ela é evangélica e se casou com um homem não cigano.


“Eu não saio contando por aí, quando tenho oportunidade eu falo. Na faculdade todo mundo sabia que eu era cigana. Nunca senti essa discriminação, mas ela existe. Quando eu era criança tinha mais. Os pais das outras crianças não deixavam que brincassem com a gente”, contou ao 

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Terezinha nasceu e morou em tendas durante a infância. Naquela época os pais viajavam muito, mas depois se estabeleceram no interior de Mato Grosso até que ela se mudou para Cuiabá.


“Uma tradição que a gente mantém viva é a reunião familiar. Todo terceiro domingo do mês, nos reunimos na casa de um irmão. Almoçamos e passamos o dia. Tem até escala anual para saber na casa de quem será a confraternização. Fazemos isso há 30 anos”, conta a cigana.


Somados todos os membros da família, cada almoço reúne cerca de 70 pessoas.

 

Divulgação

familia uanderson cigano

familia uanderson cigano

 Reunião familiar de Uanderson

O cigano, também Calon, Uanderson Pereira dos Santos mora em Rondonópolis e se casou com uma cigana. Ele frequentou a universidade e se formou em agrononomia. Assim como Terezinha, os costumes étnicos se restringiram às reuniões, onde a família preserva os trajes típicos e o idioma.


Como não se apresenta como cigano, Uanderson não enfrenta tanto preconceito agora, mas quando criança, os colegas de classe eram cruéis. E as lembranças negativas permanecem na memória.


“Sempre que sumia alguma coisa, um lápis, uma borracha já apontavam para o cigano. Era muito ruim”, relata.


Terezinha, Aluízio e Uanderson tiveram a oportunidade de estudar e trabalhar em empregos formais, mas essa não é a realidade dos ciganos brasileiros. Muitos deles não têm acesso à educação. Devido ao racismo e discriminação social, os grupos vivem nas periferias e em espaços com estruturas inadequadas. 

 

Dom de prever o futuro
É comum encontrar ciganos oferecendo leitura de mãos pelas ruas de grandes cidades. Esse é um dom dos povos, mas que já não é tão praticado e também não contempla todos os ciganos, assim como a leitura de tarot.


Azevedo explica que a previsão é uma espécie de psicologia. É a sensibilidade que muitos povos ocidentais e a ciência perderam, a conexão com a natureza, o entendimento de que a terra é nosso lar e que precisa ser preservada.

 

Origem

Os primeiros registros ciganos são do Egito, que depois se espalharam pela Europa ainda no ano mil. Atualmente, as maiores comunidades estão na Turquia, Romênia e Brasil. Os primeiros ciganos chegaram ao Brasil expulsos da Europa, onde ser cigano era crime e as tradições proibidas. Muitos deles foram mortos pelo Nazismo e há estudos que mostra mortes das etnias mais volumosas do que os judeus.


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