09/07/2020 às 14h52min - Atualizada em 09/07/2020 às 14h52min

Padre que chamou Bolsonaro de 'bandido' se desculpa, mas afirma que o mundo não gosta do presidente

Apesar do pedido de desculpas, durante a missa do domingo (5/7), o padre Edson Tagliaferro frisou que não é apenas ele que não gosta de Bolsonaro

Carolina Fonsêca, JC e Correio Nogueirense
ARAGUAIA NOTÍCIA


Após viralizar em um vídeo onde chamou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de "bandido", o padre Edson Adélio Tagliaferro pediu desculpas, segundo o portal Congresso em Foco. De acordo bispo da Diocese de Limeira, Dom José Roberto Fortes Palau, o padre "reconhece que se excedeu em suas palavras e pede desculpas ao Sr. Presidente da República e a todos que se sentiram de algum modo atingidos". Na última quinta-feira (2), o padre Edson fez duras críticas a Bolsonaro durante a homilia de uma celebração. O momento foi registrado em vídeo, parou nas redes sociais e se espalhou rapidamente pela internet.

Pároco da Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores, da cidade de Artur Nogueira,no interior de São Paulo, Edson Tagliaferro afirmou, no último domingo (5), que sua fala foi "descontextualizada" e ressaltou ainda que, no dia missa, havia discutido com uma eleitora de Bolsonaro. "É bom que saibam reconhecer no padre um ser humano que também sofre as incoerências da vida, tem suas lutas interiores e desafios exteriores a enfrentar. Naquele dia específico, eu tive uma conversa acalorada com uma apoiadora do presidente da República. Isso talvez tenha sido decisivo para o ocorrido", afirmou.

Durante a homilia, o padre Edson fez duras críticas à postura do governo diante da pandemia do novo coronavírus. "Um país que já chegou a 60 mil mortos pela pandemia e não tem um ministro da Saúde, vocês querem que eu fale o que? Aquilos que todos falam, que ele não trabalha porque não deixam ele trabalhar? Não! É porque ele não presta. Bolsonaro não vale nada", disse. "Quem votou nele deveria se confessar, pedir perdão a Deus pelo pecado que cometeu, porque elegeu bandido para a Presidência", acrescentou.

Em nota, o bispo afirmou que o trecho da homilia "infelizmente ganhou repercussão midiática pelo uso de palavras inadequadas" que se referiam ao presidente Jair Bolsonaro. Dom José destacou ainda que "qualquer opinião pessoal e isolada não representa a posição da Diocese de Limeira". O bispo disse ainda que a Igreja Católica "não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político". 

Também por meio de nota, Tagliaferro disse estar ciente das consequências de sua fala, embora não imaginasse que o teor dela pudesse sair dos limites de Artur Nogueira, sua cidade. Ele disse ainda que "mais que uma crítica política", fez uma provocação teológica", pois "quem comunga com o Evangelho não pode se associar ao reino da morte". "Seria bom ainda se perguntar por que um vídeo dizendo essas coisas se espalhou como fogo no capim seco? Há tantas pessoas que dizem isso na internet, não sou o primeiro. O que mudou? Talvez não seja somente eu a estar cansado e angustiado com tudo o que está acontecendo e esta voz acabou representando tantas vozes entaladas na garganta de muita gente", argumentou.

Apesar do posicionamento da Diocese e do próprio pedido de desculpas do padre Edson, ele afirmou, durante a missa do domingo, que "não é apenas ele" que não gosta do presidente. "Por fim, pegando um gancho com a liturgia de hoje, eu queria deixar claro que não sou eu que não gosto do Bolsonaro. O mundo não gosta dele. O mundo está preocupado e debochando do Brasil por causa do nosso presidente. Então, não se preocupem com o padre Edson", frisou.



Em nota o padre diz, “apenas a parte selecionada, fica descontextualizada a fala. Por isso a necessidade de esclarecimentos”.

Confira a nota na íntegra:

NOTA DE ESCLARECIMENTO


No dia dois de julho, durante a missa, fiz a homilia de costume. Havia cerca de cento e dez locais conectados conosco para a celebração da missa. A homilia foi cortada em um trecho específico e o vídeo viralizou. Quero comentar sobre isso.

Primeiro, vendo apenas a parte selecionada, fica descontextualizada a fala. Por isso a necessidade de esclarecimentos. Na missa do dia tínhamos a leitura do profeta Amós (Am 7, 10-17), que como todo bom profeta, foi incisivo em sua fala contra o rei Joroboão II, rei de Israel. Também no Evangelho (Mt 9,1-8), Jesus tem um embate com os fariseus por perdoar os pecados de um paralítico.

Antes de tudo, é bom que saibam reconhecer no padre um ser humano que também sofre as incoerências da vida, tem suas lutas interiores e desafios exteriores a enfrentar. Naquele dia específico eu tive uma conversa acalorada com uma apoiadora do presidente da República. Isso talvez tenha sido decisivo para o ocorrido.

Diante disso tudo fiz a homilia e nela refleti sobre Amós. Este profeta que viveu no ano 760 a.C. e saindo do Reino do Sul, Judá, foi pregar no Reino do Norte, Israel. Deveria ser um homem simples, agricultor e pecuarista. Em Israel falou das incoerências do rei e que as consequências de seus desmandos e das elites que o apoiavam iriam levar o país à ruina. A preocupação de Amós, com certeza eram os pobres que sucumbem junto com seus líderes. A grandeza de sua atitude foi associada a sua coragem, pois ele não falou de forma velada, mas direta, “dando o nome aos bois”. Isso trouxe evidentemente consequências para o profeta que muito sofreu e foi expulso do Reino do Norte.

Trazendo isso para nossa realidade é possível entrever que, se fosse Amós a pregar teria também falado dando nomes aos argumentos. Foi o que fiz. Toda pessoa séria na vivência de sua fé está preocupada com o destino do país e a dor dos pobres. Não é difícil fazer quarentena numa bela casa, com a geladeira cheia e vultosa conta bancária. Mas não é esta a realidade do nosso país. Infelizmente. E isso não está aí por acaso, é fruto de uma história. Afinal foram 388 anos de escravidão negra dos 500 de nosso país colonizado. Somente na cidade de São Paulo são 30.000 pessoas na rua nestes dias de frio. Quantos inocentes ainda terão que morrer baleados em nosso país? E por aí vai.

Eu sabia das consequências embora não imaginasse que pudesse sair dos limites da cidade onde vivo. Já dizia o grande biblista Carlos Mesters: “Ser profeta é inspiração e transpiração” (não que eu seja um profeta, claro). Também o Mestre, Jesus Cristo, nos garantiu a cruz como consequência do discipulado. Aliás, se não estamos tendo críticas e somente glórias, é preciso reavaliar nossa vida, porque é possível que algo possa estar errado. Os santos também me inspiram, como o grande santo de minha devoção Santo Antônio de Pádua (ou Lisboa), grande orador e pregador, certo dia foi pregar aos “peixes” porque ninguém quis ouvi-lo. Imaginem eu, um simples “padre de aldeia”.

O pano de fundo da referida homilia não foi pregar o ódio e divisões. Não tinha a intenção de fazer críticas vazias e apenas provocativas. Mas meu objetivo claro foi dizer que, como cristãos que somos, não podemos ser dúbios quanto a prática da fé. Mais que uma crítica política, foi uma provocação teológica. Não foi a defesa de outro partido político como alguns disseram. Foi uma explanação à cerca da fé em Jesus Cristo e a clareza do seu Evangelho de vida. Quem comunga o seu Evangelho não pode se associar ao reino da morte. Por isso citei até a confissão. Num coração que se pretende viver a opção pela vida, não pode dar espaço ao mal, seja ele qual for. Aliás, sempre onde Jesus chega e há um “demônio”, este logo grita: “O que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus!” (Lc 4,34). Antes de Jesus falar, o mal já sabe que não cabe onde está o Senhor! Sempre enfatizei isso nas minhas homilias. Jesus veio nos salvar ou nos destruir? Quais são nossa escolhas? Nossa resposta depende de quem estamos deixar tomar conta do nosso coração.

Naquela homilia do dia 02/07 lembrei-me e citei Mt 5, 37 ( Que teu sim, seja sim, que teu não seja não!) e Ap 3, 14 -16 (nem frio nem quente, seria melhor ser frio ou quente, porque os mornos eu vomito da minha boca). Este foi o pano de fundo da reflexão. Qual está sendo nossa opção como cristãos? Ela representa o Evangelho de Jesus? Olhando a realidade a nossa volta, que tipo de Igreja queremos ser? Que cada um responda segundo sua consciência!

Seria bom ainda se perguntar por que um vídeo dizendo estas coisas se espalhou como fogo no capim seco? Há tantas pessoas que dizem isso na internet, não sou o primeiro. O que mudou? Talvez não seja somente eu a estar cansado e angustiado com tudo o que está acontecendo e esta voz acabou representando tantas vozes entaladas na garganta de muita gente.

Termino citando o grande escritor Dante Alighieri e uma citação em sua obra prima Divina Comédia. Segundo ele, na porta do inferno está escrito: “Ao entrar deixe a esperança”. Eu posso até ir para o inferno, porque jamais quero desobedecer a uma ordem do meu Senhor e sou merecedor disso pelos meus muitos pecados, mas não terei como deixar a esperança ao entrar, pois minha esperança é Cristo e ele estará para sempre no meu coração, por toda a eternidade. Rezem por mim!

Padre Edson Adélio Tagliaferro

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