14/03/2020 às 20h03min - Atualizada em 14/03/2020 às 20h03min

Idoso de 71 anos que sempre sonhou estudar defende TCC e espera por diploma

Keka Werneck / RD News
ARAGUAIA NOTÍCIA


Eupídio Neto de Oliveira, 72 anos, de Ponte Branca (MT), borracheiro aposentado, passou a vida inteira sendo chamado de analfabeto e ficava muito chateado com isso, porque, apesar de ter sido forçado a sair da escola para trabalhar na roça e ajudar em casa, sempre gostou muito dos livros e de se informar.

Aos 14 anos, parou de estudar. A mãe morreu de derrame muito nova, aos 36 anos, e eram muitos irmãos pequenos para cuidar, a roça para zelar e os mais velhos se sacrificaram.
 
Ele conta que ela levou um susto no pasto. Mais do que isso, ele não sabe bem o que aconteceu.

O tempo passou e ele foi trabalhando na roça, de borracheiro e outros ofícios braçais. Filho de garimpeiro, também se aventurou na mineração de ouro.

Mesmo a mãe sendo dona de casa e o pai garimpeiro, ambos analfabetos, eles incentivavam os filhos a mudar o rumo das coisas e a estudar. Sendo assim, todos os irmãos de Eupídio fizeram isso, menos ele. "Boa parte tornou-se professor", orgulha-se.

 
Enquanto isso, ele se virava na vida só com o ensino primário. Por já ter feito até a 4ª série, que ele rebatia todos que o chamavam de analfabeto. "Não sou!" - respondia.

Nas horas vagas, pegava livros de literatura de cordel, tais como Lampião e Pavão Misterioso, e se encantava com as histórias. "Meu pai era nordestino e me ensinou a amar cordel".

Em 1975, Eupídio perdeu totalmente a visão de um olho em um acidente na lavoura e já no outro tem apenas 30% de capacidade visual. Mesmo assim, queria ler e aprender. 

O tempo passou ainda mais e ele começou a sentir os limites da idade.  Diabetes e pressão alta foram chegando. Foi aí que ele pensou que era agora ou nunca que realizaria seu sonho: estudar, se formar, fazer até uma faculdade.

A história de Eupídio é uma dessas que ensinam à gente que nunca é tarde para correr atrás dos sonhos. Ele fez Ensino Fundamental e Médio, em Ponte Branca, pelo EJA, que é o programa de Educação de Jovens e Adultos, da Secretaria de Estado de Educação (Seduc). E, depois disso, resolveu ir para faculdade. Fez Enem, tirou uma nota boa. Pegou a mulher e seus pertences, deixou a casa para trás, e se mudou para Alto Araguaia, onde tem campus da Unemat.

Ele e a esposa moram em Alto Araguaia e ele acaba de defender seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Agora ainda faltam algumas disciplinas para pegar o diploma de Letras Língua Portuguesa.

Na sala de aula, afirma que é querido e respeitado pelos colegas. Não falta aula, faça chuva, faça sol. Anda 1 km e meio a pé para chegar à Unemat e, muitas vezes, no escuro. 

Depois que se formar, quer trabalhar em escola, ensinando Língua Portuguesa, de preferência a idosos ou crianças. Aí vai melhorar o orçamento familiar, somando com a aposentadoria que lhe rende 1 salário mínimo.


Eupídio Neto posa com a esposa e professores da Unemat no dia da defesa do seu TCC


 
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