28/11/2019 às 18h01min - Atualizada em 28/11/2019 às 18h01min

Pedro Casaldáliga é o líder abandonado pela esquerda

Esse artigo tem alguns aspectos que merecem ser analisados. Pedro Casaldáliga se tornou a maior referência socialista do Araguaia

Eduardo Gomes / Boa Midia
ARAGUAIA NOTÍCIA
Silêncio total e absoluto. O corpo frágil, vencido pelo passar dos anos e o Mal de Parkinson já não mais reage aos estímulos do cérebro. Aos 91 anos o prelado que inspira a Igreja Católica Progressista luta pela vida preso a uma cama num minúsculo quarto na casa onde mora há décadas.

A duras penas faz um vacilante sinal com a mão esquerda numa saudação que se completa plena com o brilho de seu olhar – inalterado por seu quadro de saúde. Esse cenário é parte do calvário do bispo emérito da prelazia de São Félix do Araguaia, na cidade do mesmo nome. 

Seu complemento é mais trágico ainda, pois atinge a alma que move o pastor mais conhecido do Brasil no exterior: a ausência da militância do PT, PCdoB e do PSOL; dos grandes líderes nacionais da esquerda, do comando do MST, dos artistas famosos que sempre o citam enquanto referência. da cúpula sindical. TODOS, sem exceção, o abandonaram. Pere Casaldàliga i Pla ou Dom Pedro Casaldáliga ou ainda Pedro, que é como gosta de ser chamado, agoniza na solidão.

Um pequeno e barulhento ventilador, no piso, no quarto de Pedro, com seu vaivém desengonçado e incessante, ameniza  o calor, que é marca registrada na região.

Estive ao lado de sua cama na sexta-feira, 22 deste novembro. Ao longo de três dias não vi nenhuma movimentação de visitantes. Uma desgastada cadeira de rodas, ao lado de seu aposento, testemunha sua vida na casa onde mora em São Félix do Araguaia, sob os cuidados de dois enfermeiros, dois cuidadores de idosos, duas funcionárias que fazem a limpeza e da onipresente dona Diolice Dias de Farias, uma goiana que desde 1992 é o braço direito de Pedro.

Sem permanência constante, mas sempre atento, o padre Ivo Cardozo, da Prelazia – no bom sentido – é o cão de guarda: filtra a tentativa de aproximação dos jornalistas que não rezam pela cartilha da esquerda e sequer permite ser fotografado.


Dom Pedro Casaldáliga em novembro de 2019 - Foto: 
Eduardo Gomes

A solidão de Pedro deixa a esquerda numa dualidade. Durante a prisão do ex-presidente Lula da Silva, militantes ideológicos e partidários montaram acampamento ao lado da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba, onde o mesmo ficou trancafiado. Em São Félix do Araguaia nenhuma cara aparece ao longo da enfermidade do pastor, que começou em agosto de 2015, quando fraturou o fêmur da perna esquerda e se submeteu a uma cirurgia com o médico Antônio José de Araújo, no Hospital Pio X, em Ceres (GO). “Eu o levei pra lá, onde foi atendido pelo SUS“, revela padre Ivo.  No único momento de descontração com a reportagem, o sacerdote disse que “idoso não quebra fêmur na queda; ele quebra (o fêmur) e cai”.

Além da solidão ideológica, Pedro também enfrenta o abandono de São Félix do Araguaia, o que não é surpresa para ele. A cidade (e a região também)  o culpa pelos baixos indicadores sociais que carregou por muitos anos, observando que investidores não se arriscavam por lá, temendo a insegurança jurídica em razão das ondas de invasões de terra que levavam as digitais do dirigente da Prelazia.
 
ALIMENTAÇÃO – Dona Diolice cuida de tudo. Pedro faz um lanche matinal, almoça, repete o lanche à tarde e se alimenta à noite. Mas seu cardápio é exclusivamente com comida pastosa à base de arroz, legumes, verduras e algumas frutas. A medicação fica a cargo dos enfermeiros, mas com supervisão do clínico geral Márcio Duarte.

APOSENTADORIA –  Espanhol de Balsareny, província de Barcelona, Pedro chegou ao Araguaia em 1970 designado para administrar a Prelazaia. Em 27 de agosto de 1971 foi nomeado bispo prelado pela papa Paulo VI e assumiu a Prelazia e a Igreja Nossa Senhora da Assunção, em São Félix do Araguaia. Alcançado pela expulsória aos 70 anos tirou a batina sendo substituído por Dom Leonardo Ulrich Steiner.

O bispo Dom Adriano Ciocca Vasino é quem responde pela Prelazia, que se estende por São Félix do Araguaia, Luciara, Alto Boa Vista, Porto Alegre do Norte, Confresa, Canabrava do Norte, Vila Rica, Santa Terezinha, São José do Xingu, Santa Cruz do Xingu, Novo Santo Antônio, outros municípios e o distrito de São José do Fontoura (de Campinápolis).

PEDRO – Escritor, pensador e contestador. Assim é Pedro, o pastor católico que fazia do apoio aos movimentos sem terra e indigenista o alicerce de sua evangelização. Bispo em atividade, sorria para a Guerrilha do Araguaia, mas não participou diretamente dos enfrentamentos. Foi ardoroso defensor da Fazenda Suiá-Missu, conhecida na região como Fazenda do Papa. Presenciou o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, em Ribeirão Cascalheira.

Dois de seus posicionamentos se chocam com a Santa Sé: defende a ordenação de mulheres para o sacerdócio e contesta o celibato sacerdotal.

Mesmo de esquerda, Pedro certa vez disse que “o governo de Lula gosta mais dos ricos do que dos pobres“. Nesse quesito padre Ivo discorda. Segundo ele, nos governos de Lula e Dilma, o prelado tinha mais apoio. Reticente quanto ao presidente Jair Bolsonaro, o sacerdote avalia que ele seja ruim para a Prelazia. Na cidade se comenta que o chororô se deve ao fechamento da torneira que irrigava os cofres de organizações não governamentais ligadas a Pedro, e que se dizem defensoras dos índios no Araguaia e Xingu.

A comunidade acadêmica o reverencia. É Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade. São Félix do Araguaia, uma avenida reverencia seu nome.

REENCONTRO – Esse foi o mais recente reencontro nosso. Estivemos juntos em algumas oportunidades. A primeira vez que nos vimos foi em 1983m na cidade de Rondonópolis. Pedro estava acompanhado pelo secretário municipal Luiz Alberto Esteves Scaloppe, agora procurador da Justiça. O prelado iria para Fátima de São Lourenço, município de Juscimeira, participar de um evento de freiras. Atendendo Scaloppe o entrevistei ao vivo na Rádio Juventude AM. Vigiado pelo regime militar, o prelado enfrentava barreiras para ter acesso aos veículos de Comunicação. Aquela foi a primeira entrevista por ele concedida ao vivo. A recompensa, em agradecimento, foi um anel de Tucum, preto, que usei até que se rompesse.

Nesse reecontro, em São Félix do Araguaia, deparei-me com um homem de idade avançada, abatido, enfermo e abandonado por seus companheiros de causa ideológica. Peço a Deus que estenda seus dias e que restabeleça sua saúde.

A situação de Pedro e a movimentação em memória da vereadora Marielle Francisco da Silva, conhecida como Marielle Franco, mostram duas facetas da esquerda. Os que clamam pela política assassinada no Rio de Janeiro adotam o bordão PRESENTE! nos atos públicos sobre ela. A presença é uma forma de demonstrar unidade ideológica. Se o mesmo questionamento fosse feito sobre visitação ao prelado, seria assim:
PT?
– Ausente.
PSOL?
– Ausente.
PCdoB?
– Ausente.
MST?
– Ausente
Direitos Humanos?
– Ausente.
Artistas famosos?
– Ausentes.
Pensadores?
– Ausentes.
Jornalistas de esquerda?
– Ausentes.
Dirigentes sindicais?
– Ausentes.

PS – Leiam a trajetória de Pedro, em detalhes, no livro Mais dois dedos de prosa em silêncio – pra rir, refletir e arguir, que o jornalista Eduardo Gomes de Andrade publica em fevereiro de 2020, como parte de uma trilogia sobre o último meio século em Mato Grosso.

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