28/11/2018 às 12h04min - Atualizada em 28/11/2018 às 12h04min

“Eu a perdoo”, diz gari que teve a perna amputada; vítima ficou desempregada dois anos

Olhar Direto
Araguaia Notícia
“Eu a perdoo, mas não tiro a responsabilidade dela”. É o que diz o gari Darliney Silva Madaleno, de 41 anos, que teve a perna amputada depois que foi ‘prensado’ por um Jeep Renegade conduzido pela procuradora aposentada, Luiza Siqueira de Farias, de 68 anos, na Avenida Getúlio Vargas, na madrugada do dia 20 de novembro. Na ocasião exame de alcoolemia apontou que a condutora estava embriagada. 

Em uma kitnet alugada no bairro Renascer, ele e sua esposa Rosilda de Souza, de 53 anos, receberam à reportagem do Olhar Direto para contar o drama vivenciado nos últimos dias.
 
Darliney citou uma passagem bíblica para afirmar que perdoa a procuradora que o atropelou. “Eu coloquei nas mãos de Deus. Ele vai fazer do jeito dele. Eu perdoo ela, porque ela é ser humana. Deus diz que precisa perdoar 70x7”, disse. “Perdoo ela, só que ela não vai sair da responsabilidade dela, ela vai ter que assumir. Ela tem que pagar pelo que fez”, completou.
 
Após dois anos sem trabalho, Darliney estava atuando há apenas 40 dias na coleta de lixo. Antes ele sobrevivia com o que aparecia: “descarregava umas carretas, carpia um lote para não ficar parado. Me chamaram para trabalhar e eu fui e me aconteceu isso...”.
 
Ele contou que começava a coletar às 19 horas e só parava às 3h40, sempre na região central da capital. “A galera era rápida. O coletor passava e recolhia e a gente só pegava e ia. No local que nós paramos aconteceu isso”, relata dizendo não se lembrar do acidente. “A pancada foi tão grande, não vi mais nada. Só lembro quando eu acordei no Pronto-Socorro”.
 
Foi ainda durante a madrugada que a esposa foi informada do acidente. “Fui para o Pronto- Socorro do jeito que eu estava. Me falaram que iam ter que amputar a perna dele. Perguntaram se podia falar para ele, eu disse que podia”, lembrou.

A esposa do gari está desempregada e passa o dia cuidadando do marido. “Ele só tem eu pra cuidar dele e às vezes meu irmã, que está desempregado e auxilia. Ficou difícil pra gente”, esclareceu.

Segundo ela, as dificuldades são grandes na adaptação do marido, já que a casa onde moram é pequena. Por ser alugada, eles não podem fazer mudanças na estrutura para melhorar a locomoção da cadeira de rodas de Darliney.

Rubens Alves da Costa também é gari e presenciou todo o acidente. Na manhã desta terça-feira, 27, ele visitou o colega e contou que o barulho da colisão do Jeep no caminhão foi semelhante a uma explosão.
 
"Na hora que ‘explodiu’ eu saltei para trás e dei uma olhada. Eu falei: 'cadê o gari? O gari sumiu'. Ele estava caído no chão, com a roupa toda rasgada”, lembrou. 
No último sábado (24), depois de permanecer quatro dias hospitalizado, 'Ney' recebeu  alta médica. Na sequência, o prefeito Emanuel Pinheiro lhe fez uma visita e garantiu a reinserção de Darliney no mercado de trabalho. “Você pode contar com a Prefeitura quer te ajudar não só nesse momento, trágico. Graças a Deus você está vivo e vamos acompanhar sua recuperação. Daqui para a frente vamos acompanhar o seu pronto reestabelecimento e para te inserir novamente no mercado de trabalho. Pode contar com a gente”, garantiu Pinheiro. 

Entretanto, ele não completou o ensino fundamental e também não tem qualificação profissional, assim como sua esposa. Rosilda disse que ambos estão acostumados com o trabalho 'braçal'. Abalado, Darliney disse que, neste momento, não pensa em voltar ao trabalho. Além disso, ele não pode fazer muito esforço, por conta de uma pequena lesão na região da bacia. 

Até o momento, o trabalhador não recebeu nenhum tipo de ajuda da procuradora e também afirmou não ter sido procurado por nenhum advogado dela. Por meio de nota, a defesa da procuradora aposentada afirmou que ela não estava alcoolizada, mas sim em estado de síncope.

A família ponderou que quem tiver interesse em ajudar pode entrar em contato através do seguinte telefone:  (65) 9697-4574.

Doações em dinheiro podem ser feitas na conta bancária da Caixa Econômica: agência 1569,  013 (operação) e conta corrente: 000292809. CPF: 616-853-051-72

Relembre o fato

A procuradora Luiza Siqueira de Farias, de 68 anos, atropelou um funcionário da empresa que presta serviços de coleta de lixo para a Prefeitura de Cuiabá, na madrugada de terça-feira (20), na Avenida Getúlio Vargas. A vítima, Darliney Silva Madaleno, trabalhava no momento em que foi esmagado entre o veículo da mulher, um Jeep Renegade, e o caminhão da coleta. De acordo com informações da Polícia Civil, Luiza dirigia com uma taxa de 0,66 mg de álcool por litro de ar expelido, ou seja, duas vezes a mais do que o permitido pela lei. 
 
O magistrado Jeverson Luiz Quinteiro concedeu liberdade provisória à procuradora ao arbitrar a fiança de oito salários mínimos (R$ 7,6 mil). A audiência de custódia foi realizada no inicio da noite de terça-feira (20), no Fórum de Cuiabá. A procuradora aposentada assinou termo de compromisso e está proibida de dirigir. Ela teve a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) recolhida.
 
A defesa da aposentada afirmou que ela não estava embriagada no momento do fato: “estado de síncope”. Em nota - assinada pelos advogados Valber Melo, Filipe Maia Broeto e Milton José - a defesa explica que “as imagens veiculadas por alguns sítios virtuais não retratam ou comprovam qualquer quadro de embriaguez, senão um estado de choque decorrente da forte colisão, a qual acabou por gerar, conforme laudo médico, um ‘estado de sincope’”.

Melhores condições de trabalho

Um grupo de garis de Cuiabá paralisou as atividades na madrugada desta terça-feira (27) para cobrar melhores condições de trabalho. O fato acontece após o atropelamento de Darliney Silva Madaleno, de 41 anos e Sebastião da Silva Fialho, de 28 anos, que foram atingidos por motoristas embriagados durante o trabalho. Os dois fatos aconteceram em menos de uma semana.

Ao Olhar Direto, a prefeitura de Cuiabá disse que já tomou as devidas providências para que um acordo fosse firmado com os servidores.

"Nesta manhã, o secretário José Roberto Stopa, juntamente com a Diretoria de Resíduos Sólidos da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos, estiveram reunidos com os trabalhadores para ouvir suas reivindicações. Na ocasião, a Pasta intermediou uma negociação junto à empresa prestadora do serviço, atendendo as solicitações de melhorias nas condições de trabalho", diz trecho da nota enviada à imprensa. 



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