26/03/2018 às 12h07min - Atualizada em 26/03/2018 às 12h07min

Turismo é novo aliado da sustentabilidade no Araguaia

Grupo investe na criação de novo destino que oferece atrativos como a visualização da onça-pintada, experiências esotéricas, fazendas históricas e muitas belezas naturais

Circuito MT
Araguaia Notícia
Em um ponto equidistante entre o Pacífico e o Atlântico, em pleno coração do Brasil, está o Araguaia, em Mato Grosso. Uma região ainda desconhecida por muitos brasileiros ou reconhecida apenas por ser uma dos maiores produtoras de carne do país. O desafio atual é consolidar as belezas naturais e os atrativos históricos e culturais da Serra do Roncador, as cidades banhadas pelos rios Araguaia e Mortes como um destino turístico internacional e nacional. A nova Marcha para o Oeste agora será empreendida por viajantes em busca do turismo histórico e de natureza.

Um dos pontos de partida para a “Rota Roncador” é uma antiga Missão Salesiana às margens do rio das Mortes, na sede da fazenda Água Viva, em Cocalinho. Construída em meados dos anos de 1950, a casa é contemporânea da primeira entrada de colonizadores no Araguaia. Quando movidos pelo último movimento de interiorização do país, as nações indígenas isoladas do Centro-Oeste foram surpreendidas pela “Rota Brasil Oeste”, liderada pelos sertanistas Leonardo, Cláudio e Orlando Villas-Bôas, e promovida pelo regime militar para que famílias dos Sul e do Sudeste criassem cidades e desenvolvessem o Centro-Oeste e a Amazônia. Uma epopeia que entrou para a História como das últimas aventuras do século XX.

Um período também marcado por conflitos com povos indígenas e muita luta pela terra, só minimizados com a criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961, para onde foram relocadas 5.500 indígenas de 14 etnias diferentes para uma área de 27 mil km2.

Vendida como um local habitado por índios selvagens, riquezas minerais, feras que deveriam ser dominadas, colonizar o Araguaia foi uma ousada política de governo. Até 1940, praticamente os 43 milhões de habitantes do Brasil estavam concentrados no litoral e o interior e a floresta eram o “Inferno Verde” temido por todos.

Para Helen Cristina e Sérgio Ricardo Bourguigon, os tesouros do Araguaia são justamente esses elementos que antes causavam tanto temor. O casal lidera, junto com um grupo de 50 fazendeiros que formam a Liga do Araguaia, uma iniciativa que busca a sustentabilidade da pecuária na região. O turismo é um dos componentes mais importantes da iniciativa, para isso eles estão fazendo estudos em todas as propriedades locais para realizar o diagnóstico dos atrativos das fazendas que deve integrar uma grande rota a ser divulgada nacional e internacionalmente.

Em dois meses de iniciativa, o levantamento dos Bourguigons surpreende. A existência de um grande potencial para a visualização de onças-pintadas é um dos atrativos locais.  “Estamos com uma parceria com o biólogo Leandro Silveira, presidente do Instituto Onça-Pintada, que atua no Parque Nacional das Emas, em Goiás. E já descobrirmos que aqui além de existir ambientes preservados, que contam com a presença de onças-pintadas, também existem propriedades dispostas a trabalhar para receber animais que precisam ser reintroduzidos. O que pode ser um grande aliado do turismo”, explica Helen Cristina, administradora e uma das responsáveis pelo estudo de desenvolvimento regional da iniciativa.

Além do turismo de visualização de fauna e histórico, a região conta também com muitos atrativos naturais. As lagoas de águas cristalinas do Araguaia estão entre as mais belas do país. Também existe uma série de nascentes conhecidas como “fervedouro”, de onde a água brota constantemente e é possível fazer flutuação.

O turismo de pesca e de praia nos rios das Mortes e no Araguaia são as estrelas das atrações. As praias do Araguaia possibilitam que os visitantes tenham contato com animais como botos e tartarugas de água doce, os quelônios do Araguaia. No período de pesca, é possível se aventurar na busca de gigantes piraíbas, pirararas, tucunarés e matrinxãs, tambaquis.

As grutas e belíssimas cavernas de calcário Serra do Roncador possibilitam a interação entre diversas modalidades de turismo. Na cidade de Água Boa, por exemplo, ao menos três vezes ao ano, milhares de visitantes já buscam a região para participar de rituais de cura espiritual que acontecem no Santuário Místico e Ecológico do Roncador.

Administrado pelo movimento da Gnose, que busca um conhecimento eterno e universal que visa levar o ser humano ao desenvolvimento de suas potencialidades adormecidas (ou latentes), o grupo promove rituais em uma das cavernas da serra e já tem uma pousada consolidada na cidade.

“Nossa proposta é atrair os visitantes que vêm todos os anos para o santuário, para também conhecerem as belezas naturais, a história e os rios do Araguaia”, explica o guia de turismo e biólogo Sérgio Ricardo Bourguigon. “O eixo dessa visitação pode acontecer pela cidade de Barra do Garças, que também já conta com um voo direto para as cidades de Cuiabá e Goiânia”.

Para o proprietário da fazenda Água Viva, que comprou a sede da Missão Salesiana e a reformou já pensando no turismo, a concretização da Rota Roncador é uma esperança para ajudar na sustentabilidade da pecuária. “É mais uma iniciativa para agregar valor as nossas áreas verdes. Que na maioria das vezes permanecem intocadas e, com o turismo, tornam-se também potenciais geradores de renda, o que pode inclusive ajudar nos custos necessários para garantirmos uma produção de carne com menos impactos ambientais no Araguaia”, afirma Caio Penido.

Roncador esconde mistério de um século

Em janeiro de 1925, o explorador inglês Percy Harrisson Fawcett partiu para Mato Grosso com o filho Jack, de 21 anos, e um amigo de infância deste, Raleigh Rimmell. Antes de embarcar no navio, Fawcett divulgou à imprensa que faria a maior descoberta do século XX e revelaria as ruínas de uma civilização avançada escondida nas selvas do Brasil. Batizada com o nome de ‘Z’, a cidade teria pirâmides, templos de pedra e seria um verdadeiro eldorado, repleto de ouro e outros tesouros. Cinco meses depois, o grupo desapareceu em plena Serra do Roncador, dando início ao maior mistério da exploração da Amazônia.

As evidências sobre a existência de ‘Z’ eram frágeis, baseadas em um pergaminho anônimo português de 1753 e numa estatueta de pedra que Fawcett ganhou do escritor de histórias de aventura Rider Haggard (cuja autenticidade nunca foi atestada). A localização exata das ruínas teria sido revelada a ele por índios em 1908, quando realizou o feito que o tornou famoso: o mapeamento das fronteiras do Brasil com a Bolívia. Cartógrafo e arqueólogo autodidata, Fawcett sobreviveu a dez anos de expedição em uma das regiões mais inóspitas da Amazônia. Antes da aventura no Brasil, a fama do explorador andava meio abalada. A nova viagem seria uma forma de Fawcett reconquistar a credibilidade perdida e parte de sua fortuna. Ele tinha gastado quase tudo o que tinha em tentativas frustradas de encontrar ‘Z’. Nina e seus três filhos viviam privações na periferia de Stoke Canon, na Inglaterra.

Além de render fama e dinheiro a Fawcett, a descoberta de ‘Z’ derrubaria todas as teorias daquele tempo em torno do povoamento das Américas. Supunha-se que a Amazônia pré-colonial era habitada apenas por índios nômades e de cultura rudimentar.

Os primeiros sinais do fracasso da missão de Fawcett surgiram no dia 29 de maio de 1925, quando a expedição atingiu os limites do atual Xingu. A fome, o ataque incessante de insetos e as doenças eram as notícias sobre o grupo. A partir de um ponto que Fawcett chamava de “O Acampamento do Cavalo Morto”, os guias foram despachados de volta a Cuiabá.

Os três aventureiros iriam seguir a pé e sozinhos rumo a ‘Z’. Os índios calapalos e cuicuros, do Alto Xingu, foram os últimos a ver Jack, Raleigh e Fawcett vivos. A ausência de vestígios abriu as portas para inúmeras versões. Especula-se que eles tenham sido mortos pelos índios, sucumbido à fome ou acabaram atacados por animais. Em histórias mais fantásticas, Fawcett teria encontrado ‘Z’ e decidido nunca mais sair de lá. Alguns grupos místicos afirmam que ele tornou-se um mensageiro de outra dimensão e vive em uma espécie de portal atemporal.

Desde o seu desaparecimento, cerca de cem expedições percorreram as selvas do Xingu em busca de Fawcett. Nenhuma delas encontrou vestígios confiáveis sobre o paradeiro da expedição. Rodas literárias, livros, revistas e histórias em quadrinhos foram publicadas contando a saga do inglês. Muitos enriqueceram com essas viagens, como o francês Roger Courteville, que em 1927 afirmou ter encontrado os três exploradores vivendo como ermitões. Courteville foi desmascarado pelo Marechal Cândido Rondon – outro que buscou vestígios da expedição, infrutiferamente. A família de Fawcett publicou alguns dos diários do explorador, e um de seus filhos, Brian, lançou sua própria versão sobre a morte do pai.

Recentemente a figura histórica do explorador Percy Fawcett foi tema do livro “Z, a cidade perdida – A obsessão mortal do coronel Fawcett em busca do Eldorado brasileiro” (Companhia das Letras), de David Grann, o badalado editor da revista americana The New Yorker. O livro baseia-se em diários e correspondências de Percy Fawcett e sua mulher, Nina.  A história de Fawcett também seduziu outra figura importante de Hollywood: Brad Pitt. Por meio de sua produtora, a Plan B Entertainment, o ator americano comprou os direitos do livro de Grann e também lançou um filme sobre Fawcett.

Para o pessoal da área do turismo, a figura do explorador pode ser sim o chamariz para o turismo na região. “É impossível não associar a região à história de Fawcett. Toda vez que visitamos as muitas cavernas da região, as pessoas questionam sobre ele. Vale, sim, de uma forma muita responsável, resgatarmos essa história importante para a região”, explica o guia de turismo e um dos idealizadores da Rota Turística, Sérgio Ricardo dos Santos Bourguigon.
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