08/06/2017 às 17h27min - Atualizada em 08/06/2017 às 17h27min

Em 15 anos, 49 índios tiraram a vida e procurador manda apurar casos

Francis Amorim / RDNews
O procurador da República em Barra do Garças, Rafael Guimarães Nogueira, determinou a instauração de procedimento para apurar o alto índice de suicídios registrado entre os índios da etnia Karajás, na região de São Félix do Araguaia (a 1.132 km de Cuiabá). De 2002 a 2017, 49 indígenas já tiraram a própria vida, sendo 46 homens e três mulheres.

Os números fornecidos pelo Distrito Sanitário Especial Indígena do Araguaia (Dsei) assustaram o procurador. No documento assinado por ele, a preocupação é que o aumento de casos se relaciona aos índios jovens. O coordenador Dsei Araguaia, Antônio Fernando Ferreira, explica que o órgão tem tomado providências.

De acordo com o coordenador, eventos são realizados nas comunidades para "reduzir o uso abusivo de álcool e outras drogas e, principalmente, a incidência de suicídio", além de acompanhamento de uma equipe de saúde mental para orientar os índios.

Para a professora do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (UFG), Mônica Thereza Soares Pechincha, a causa dos suicídios ainda não é muito clara, contudo, estudo publicado por ela atribui a "entrada da globalização" nas aldeias como motivo possível.

“Como dizem, o dinheiro está criando classes sociais nas aldeias e não poder adquirir certos bens estaria tornando os jovens entristecidos e levando-os a não desejar viver”, diz trecho do artigo.

Ainda conforme o estudo, a professora afirma que o alcoolismo não é colocado como causa incontestável das mortes. Segundo ela, nem todos que se suicidaram faziam o uso de bebidas alcoólicas. “Ao contrário, muitos dos jovens que morreram eram quietos e comportados”.

Para fundamentar o estudo, Mônica Thereza entrevistou professores indígenas da etnia Karajás. Um dos professores entrevistados compara os suicídios com uma epidemia. “Como a gente vai controlar isso? A primeira pessoa que se suicidou foi na minha família. Depois de Itxalá [nome da aldeia], parecia gripe, aconteceu uma epidemia. Houve um tempo que era um atrás do outro, parecia que o mundo estava se acabando”, conta.

Na região de São Félix do Araguaia, segundo o Dsei, residem cerca 5 mil índios distribuídos em sete etnias e cerca de 39 aldeias. Além de moradores do Estado, a instituição atende também municípios de Goiás e Tocantins, que fazem divisa com Mato Grosso.
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