01/09/2016 às 12h59min - Atualizada em 01/09/2016 às 12h59min

Entre praias e cânions, os segredos do Rio Araguaia

O Globo

ARUANÃ - Seu Carrijo tinha 11 anos quando ia com o pai para o garimpo, atividade que exigia mergulhos com escafandro no Rio Araguaia, a 30 metros de profundidade. Os anos se passaram, o nível da água baixou, as pedras preciosas escassearam, mas o rio nunca o deixou. Hoje, aos 60 anos, Valdemar Carrijo acompanha grupos de viajantes que seguem Araguaia abaixo, em expedições de quatro dias.

Com mais de 2.000km, esse curso d’água do oeste goiano é protagonista de um roteiro turístico conhecido como Vale do Araguaia. Por ali, o rio é mutante e abriga experiências como corredeiras em cânions estreitos (em Baliza), praias urbanas de rio e águas termais (Aragarças), acampamentos de charme (Aruanã) e uma cidade exclusiva para prática da pesca esportiva (Luiz Alves), num dos rios já considerado dos mais piscosos do mundo.

E a cada curva sinuosa, nunca se sabe o que vem pela frente. Faixas de areia que brotam do fundo do rio, dando origem a praias minúsculas; cachoeiras a desaguar; cascatas, naturalmente quentes, que escorrem por veios rochosos; trilhas curtas que levam a poços que viram piscinas naturais; e corredeiras vencidas numa espécie de rafting para principiantes.

Em Goiás, o Araguaia é uma espécie de divisor natural entre o Cerrado, o Pantanal e a vegetação amazônica, passando por estados como Mato Grosso, Tocantins e Pará. A viagem pelo rio, que na cheia chega a se alargar até 60km, começa em Mineiros, no extremo sudoeste de Goiás, a 420km da capital, Goiânia. Ali ele nasce: na Reserva Particular do Patrimônio Natural Nascentes do Rio Araguaia.

Localizada no interior da Fazenda Jacuba, a principal nascente pode ser visitada a partir de uma trilha curta por mata fechada que dá acesso a um poço escondido, de onde saem águas de correnteza apressada, em direção ao norte de Goiás. A visita faz parte do roteiro de quem vai ao Parque Nacional das Emas, Patrimônio Mundial da Unesco, onde se veem animais como ema, veado-campeiro e lobo-guará.

A reserva funciona como um corredor natural que conecta o Cerrado e a Amazônia. Assim, a fauna se deixa ser vista, facilmente. Em área urbana de Mineiros, não é raro ver casais de araras sobrevoando nossas cabeças.

A 220km ao norte, em Baliza, o viajante percebe melhor por que aquele rio é orgulho goiano. O que era uma nascente discreta se transforma num longo corredor estreito que rasga rochas talhadas, dando origem a um cânion natural, em meio ao Cerrado. Nada por ali lembra as praias urbanas de outras áreas do Araguaia.

Com acesso pela Barra do Ribeirãozinho, a 15km de Ribeirãozinho, no Mato Grosso, limite com Goiás, essa versão do Alto Araguaia pode ser explorada em expedições turísticas que descem 70km, rio abaixo. De julho a outubro, na época da vazão, o Jangadão Ecológico reúne, por quatro dias, visitantes que não se contentam com as facilidades ribeirinhas de outras paragens do Araguaia e acampam ali, em cenários pouco explorados.

Em funcionamento desde 2008, a experiência reúne 25 botes, acompanhados de canoas para travessias. As responsabilidades do turista são remar, transportar bens pessoais e armar sua barraca. De resto, pode deixar que o Araguaia e a equipe de apoio se encarregam, inclusive da refeição preparada ali, na beira do rio.

— É viagem para quem está disposto a remar todo o dia e viver em meio à natureza — descreve o organizador Nélio Silva Carrijo, sobrinho de Valdemar, que vem de uma família criada na beira do rio e que sempre se encantou com o mistério do Araguaia.

Um luxo ter aquele rio na porta de casa e, já nas primeiras horas do dia, ser praticamente o único a vê-lo seguir viagem, rumo ao Tocantins.

Definitivamente, tem muito mais Araguaia do que se pode imaginar.

Não muito longe da região dos cânions, a uns 60km deles, a calmaria dá lugar a um agito que nem sempre agrada a quem procura cenários inexplorados. Localizada no limite com Barra do Garças, no Mato Grosso, Aragarças é endereço das únicas praias urbanas do Araguaia, na margem direita do rio.

Erguida como povoado de garimpeiros de diamantes e ponto estratégico para a passagem de soldados durante a Guerra do Paraguai, a 420km de Goiânia, a cidade se orgulha da bem estruturada avenida beira-rio com bares e restaurantes, que têm mesas e cadeiras fincadas nas águas da praia Quarto Crescente. O caos típico de destinos fronteiriços, embalado pela música de qualidade duvidosa, contudo, desagrada a quem busca tranquilidade.

Mas a 22km dali o Araguaia volta a assumir seu ritmo natural (e sereno). A região de Aragarças tem se destacado por suas propriedades medicinais, como o Complexo Ecothermal Água Santa, onde uma mina de água quente termal abastece as banheiras dos chalés e o Poço do Tomás, uma piscina natural a temperatura de 35°C a 40°C.

O local abriga ainda acesso exclusivo para uma das praias isoladas do Araguaia, a pouco mais de 100 metros da sede da fazenda que, informa o Iphan, fora uma antiga área de disputa indígena, devido à fonte termal “de poderes curativos e rejuvenescedores”. Não é raro avistar, pela manhã, botos cor-de-rosa nesse trecho mais estreito de rio.

Se Aragarças é o centro nervoso do Araguaia, Aruanã é o coração. Principal porta de entrada da região, a cidade a 314km da capital é um dos mais bem estruturados destinos ribeirinhos do oeste goiano, onde a população de 22 mil habitantes vê chegar 300 mil visitantes só em julho.

Goiano é um brasileiro muito apegado às raízes e talvez por isso em Aruanã não dê para escapar de uma das experiências mais tradicionais do estado. Se Goiás não deu sorte de contar com praias, eles trataram de inventar uma. Uma, não. Muitas.

É na temporada de vazão que acampamentos são montados na beira do rio, sobre bancos de areia que surgem com o nível mais baixo das águas. Subindo o Araguaia, os veranistas encontram as opções mais populares de acampamentos. Conhecidos como ranchos, os quartos sob estrutura de palha contam com camas, banheiro e alguns até com ar-condicionado.

— Tudo depende da baixa do rio. Não existe local fixo para acampamento de uma temporada para outra — explica Bibiane Venâncio de Paiva Correa, secretária de Turismo da cidade.

De agosto a outubro, fora da época das férias, mas com o rio ainda baixo, a região fica por conta da pesca. E o tempo todo é possível alugar canoas para passeios e praticar esportes náuticos, na movimentada Praia do Cavalo, a 1,5km do porto da cidade.

É em Aruanã também que deságua o Vermelho — o rio de águas mansas sobre o qual a poetisa Cora Coralina escrevera poemas inspiradores sobre sua Casa Velha da Ponte, em Goiás Velho, onde ele nasce. Aliás, o agito de motos aquáticas e barcos que congestionam o Araguaia dá lugar a outros ritmos no Rio Vermelho, onde as praias são tranquilas áreas de refúgio.

No Recanto do Pescador, restaurante na margem esquerda do Rio Vermelho, a 5km de Aruanã, funciona assim: você escolhe uma das porções de peixes, em um cardápio que inclui opções como costela ou filé de tilápia, caranha, barbado, piau, filhote e pintado (de R$ 25 a R$ 40), e vai até a beira do rio, enquanto espera as iguarias chegarem à mesa.

Aliás, prepare-se para ter o rio como principal via de acesso aos atrativos da região. A diária de um barqueiro exclusivo para até quatro pessoas (ou duas para quem sai para pescar) custa R$ 250 e vai das 7h às 17h. Os valores para saídas avulsas, também para quatro passageiros, variam de R$ 40 (até a Praia do Cavalo) a R$ 120 (para acampamentos mais distantes).

Para refeições em terra firme, não perca o Panelinha Vale, concorrido restaurante de Aruanã, conhecido pelos pratos servidos na panela que vai para a mesa, com opções de arroz e ingredientes como carne de sol, linguiça de pernil, camarão, pequi, guariroba e manteiga de garrafa (a partir de R$ 39,90 para duas pessoas).

Assim como o curso do rio, as opções de hospedagem também são variáveis, e quanto mais você descer o Araguaia, maiores serão as chances de encontrar praias isoladas com acampamentos de charme. Naquelas águas, luxo pode significar tendas com ar-condicionado, área social decorada com peças artesanais e jardins montados no interior de velhas canoas de madeira. Mais? Cozinheiro particular e trilha sonora que vai do jazz ao indie rock (um alento para um lugar que às vezes exagera nos shows da praça, na altíssima temporada de julho).


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