13/06/2016 às 14h35min - Atualizada em 13/06/2016 às 14h35min

Sem os braços, jovem vence preconceito e supera dificuldades

Midia News
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Para a jovem Kerolly Ketluin de Souza, de 20 anos, ter nascido sem os dois braços por conta de uma má-formação não provocou limitações à sua rotina. Ela se adaptou aos obstáculos cotidianos usando somente os pés.

A mãe, Lucinéia Maria de Souza, 43 anos, conta ao MidiaNews que, antes de engravidar, contraiu hanseníase e, durante o tratamento, teve que tomar um medicamento forte que teria provocado à ma-formação quando engravidou.

“Os médicos me informaram que, por causa desse medicamento, ela teria alguma deficiência física ou mental. Mesmo sabendo disso, eu optei por tê-la. O médico disse que eu poderia abortar, mas eu não quis”, disse.

Lucinéia revela que não foi fácil no começo. Por causa das complicações, a filha nasceu aos seis meses de gravidez. Com isso, a mãe entrou em depressão pós-parto.

“No começo foi um choque, porque você saber que sua filha terá uma má-formação é uma coisa. E ver é outra totalmente diferente. Ela nasceu com apenas 800 gramas. Tivemos que amamentá-la molhando algodão no leite e levando até a boca, que era muito pequena. Foi difícil demais. Tive depressão, não conseguia me apegar a ela. Só comecei a ter afeição quando eu a vi engatinhar e sorrir. Aí que nasceu aquele amor de mãe. Hoje eu morro por ela”, relatou.

Preconceito ainda existe

O preconceito é uma das barreiras que Kerolly teve que aprender a enfrentar ainda criança. Ao MidiaNews a jovem relatou que aprendeu a lidar com os olhares “tortos” e de curiosidade das pessoas quando ainda era criança. Hoje “tira de letra” tudo.

“Quando eu era menor, notava que as pessoas não se sentiam bem, porque não estavam acostumadas comigo. Eu também não me sentia bem. Mas depois de conhecê-las, eu me adaptei, assim como elas a mim. Sempre levei todos os olhares numa boa. Nunca tive vergonha por ser assim, mas também não gosto de plateia. Não comia na escola para evitar os olhares. Eu me sentia desconfortável”, explicou a estudante.

A mãe de Kerolly diz que ainda existe muito preconceito no Brasil. Ela lembra que numa ocasião em que viajou com a filha para o município de Itacoatiara (AM), o primeiro lugar que conheceu foi uma delegacia.

“Infelizmente o preconceito ainda é grande. Uma vez saí com ela para passear no Amazonas e duas moças que passaram por nós comentaram: 'Nossa se eu tivesse uma filha assim eu nem saía na rua". Fiquei cega, não falei uma palavra. Quando dei por mim, estava dentro de uma delegacia toda ensanguentada. Simplesmente surtei. O delegado de lá me entendeu e disse que faria o mesmo se fosse a filha dele”, relembrou.

Em contraponto, a jovem diz que tem a autoestima completamente elevada e, ao contrário do que muitas pessoas imaginam, leva uma vida normal.

Pensando no futuro

Kerolly mora com os pais, a irmã e mais três sobrinhos e conta que aprendeu a fazer tudo sozinha. Hoje a moça escreve, digita e até se maquia usando os pés, sem precisar da ajuda de ninguém.

A mãe conta que, por medo de acontecer algo, a matriculou numa escola com 10 anos.

“A dificuldade em deixá-la fazer algo sozinha era minha, nunca foi dela. Tanto que a coloquei na escola somente com 10 anos, porque tinha medo de que a machucassem ou a maltratassem. Sempre levava e buscava, até que um dia ela me surpreendeu e falou que não precisava mais deixá-la na escola, porque ela estava pagando 'mico'. Então parei”, disse Lucinéia.

A jovem hoje está no 9° ano e estuda à noite. O pai sempre a leva, mas porque tem medo de assaltos, não por sua deficiência. Alem disso, gosta de ir ao shopping e teatro com as amigas.

“Ela já tem idade para sair sozinha, porque eu não sou eterna. Então ela tem que aprender”, explicou.

Exemplo de superação, a jovem não quer parar. Assim que terminar os estudos no Ensino Médio, pensa em trabalhar e fazer faculdade de Psicologia.
“Eu quero muito trabalhar, mas meu pai não deixa. Só quando eu começar minha faculdade de psicologia e for fazer estágio. Escolhi esse curso porque gosto de ouvir as pessoas e acho que tem tudo a ver comigo”, afirmou a jovem.
 

Tratamento

Lucinéia conta que já ofereceram para estudá-la para que talvez um dia pudesse usar uma prótese, porém a mãe recusou o tratamento.
Segundo ela, a filha não precisa passar por tanto sofrimento e prefere que ela viva a vida dela.

“Já ofereceram até para levá-la a Brasília. Mas eu pensei: se Deus me deu ela assim, é porque é para ser assim. Os médicos daqui já haviam me dito que não tem como ela usar uma prótese, pois não tem a articulação para colocar e mover o braço. Eu não vou deixar a minha filha ficar servindo de cobaia”, explicou.


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